domingo, janeiro 14, 2007

Causos do Cabaré

Foto Debe Hale


última parte

"Era quando as mulheres saíam dos bregas: Casa 63, 19 da Gameleira, 11 da Gameleira, Maria da Vovó, Monte Carlo, todos no centro", lembra Grumberg. E quando acabava? "Quase de manhã. Daí o pessoal saía para comer o feijão de Zé do Muro, ali na Praça Castro Alves", recorda Grumberg. "Muita gente ia também comer no Mercado das Sete Portas", acrescenta Lopes Pontes.

Mas a festa não acabava para todos. "Depois que as portas fechavam, rolava a maior algazarra lá dentro, com as prostitutas que ficavam para a farra final", segreda Grumberg. Ele garante que Sandoval mantinha um quarto no piso superior do cabaré, apelidado sugestivamente de "galinha dos pintinhos de ouro", para curtir o resto das noitadas com algumas mulheres e amigos mais íntimos.

"Sandoval era um autêntico cabaretier (do francês: animador de cabaré), talvez o último que se viu na Bahia", declara o compositor Walter Queiroz, outra personalidade célebre da boemia soteropolitana. É de autoria de Walter Queiroz os versos "Sei beber no Varandá/Foi Sandoval quem me ensinou, ah moreno" , da música Filhos da Bahia, sucesso na voz de Fafá de Belém quando esta ainda era uma novata. "A idéia da canção era reverenciar uma personalidade singular como a de Sandoval", explica o artista. Fez mais. Eternizou um personagem do folclore da noite de Salvador, que mesmo após a morte (ocorrida em 1989), continua perene na memória de quem o conheceu.

Em 1968, o Tabaris era apenas um arremedo soturno do que outrora foi. As orquestras tinham sumido e os artistas e fregueses antigos já não tinham a menor disposição para encarar a freqüência pouco seleta que passou a dominar seu salão. O som ao vivo fora substituído por uma jukebox movida a ficha. A grana também tinha escasseado e Sandoval se viu obrigado a fechar o Tabaris, após selar um acordo com a prefeitura, proprietária do prédio. Era o fim do complexo de lazer etílico-libidinoso que por 35 anos fez o coração da cidade pulsar numa batida divertida, até hoje colada às paredes do lugar como um espectro transbordando música e cor.

Artigo retirado do Jornal Correio da Bahia

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Causos do Cabaré

O TABARIS APRESENTA:
Jamelão


Angela Maria
I parte
Causos de Cabaré
Durante a década de 60, muitos artistas continuaram indo ao Tabaris só para curtir. É o caso de Jamelão - "Um bregueiro de primeira", afirma Grumberg - e Ângela Maria, ambos já consagrados na época. Sobre Ângela, o radialista narra um episódio que integra o rol de "causos" do cabaré. Naquela época, a cantora vinha com freqüência a Salvador para participar de um programa da TV Itapoan patrocinado por uma marca de linhas de costura. "Quando dava tempo, ela, que era boêmia, vinha ao Tabaris", relata. Numa dessas noitadas, um valentão conhecido como Dilsão, famoso por suas brigas e pelo corpo avantajado que possuía, disse alguma liberdade no ouvido da cantora. "Rapaz, ela enfiou a mão na cara dele com vontade, um tapão daqueles! Aí, veio o pessoal do deixa disso e acabou com o negócio", conclui.
Mas as principais figuras do Tabaris de então eram de fato a prata da casa. Em especial, os dançarinos Vadinho Telecoteco e AE (Aeraldo, seu eterno parceiro), capazes de eletrizar a pista com seus passos suingados e precisos; a rumbeira Jambo do Norte, uma morena "cabo verde" que fazia os homens delirar; e a cantora Elisabeth Silva, que se tornou mais conhecida pelo pseudônimo, Elisabeth Al di Lá.
Ao longo de quase uma década, a regência da gandaia no cabaré ficou a cargo do novo proprietário. Desde que assumira a direção do lugar, em 1960, Sandoval Caldas imprimiu seu estilo de fazer a noite. Moreno claro, cabelos encaracolados, de baixa estatura, o que evidenciava seu tórax atarracado, Sandoval é um daqueles personagens lendários da galeria dos boêmios, um clube repleto de histórias insólitas, muitas das quais difíceis de serem provadas.
O que se sabe com certeza a seu respeito é que ele era o mais novo mestre-de-cerimônias de uma festa que durava há cerca de três décadas e que insistia em continuar. "Sandoval era o rei da noite aqui em Salvador naquele tempo", destaca o estilista e apresentador de televisão Di Paula, que também deu suas circuladas pelo cabaré e chegou a apresentar alguns espetáculos de humor e variedades na casa.
Misto de cantor, empresário e showman, sempre encalacrado em trajes cheios de extravagância, Sandoval abria a noite no cabaré usando o mesmo bordão criado por Príncipe Mário, mas omitindo a frase final: "Boate Tabaris, aqui o show começa quando você chega". "Ele era uma figuraça. Canastrão, cheio de pose, ficava mais ainda quando estava cantando, gostava de falar pelos cotovelos, tomava todas", descreve Grumberg. Foi de Sandoval a idéia de apimentar a noite na casa, trazendo algo que era novidade no circuito da boemia e acrescentando um fôlego a mais para o cabaré, que já apresentava sinais bem evidentes de declínio.
Sandoval resolveu intercalar os shows e apresentações de variedades com performances de strip-tease. "A platéia ficava enlouquecida com as mulheres nuas. Isso acabou se tornando o ponto alto na fase decadente do Tabaris", conta o diretor de teatro Manoel Lopes Pontes, freguês da casa nos anos 60. Sandoval também abriu espaço para shows de transformistas. Um deles, Carlan, é também personagem dos anais do Tabaris por suas imitações vocais e corporais de Dalva de Oliveira.
A noite, sob a batuta de Sandoval, começava por volta das 2h da madrugada...
*****
Aguarde...
Artigo extraído do Jornal Correio da Bahia

domingo, janeiro 07, 2007

Diva da Noite



última parte

Elisabeth passou a cantar nos cabarés mais movimentados da capital fluminense. O circuito de apresentações incluía casas como a Bolero, Little Club, Bacará e, por ardil do destino, o Tabaris. Isso mesmo! Até décadas atrás, esse nome era uma espécie de franquia informal, e era muito difícil que uma grande capital não possuísse sua versão de Tabaris.
Algumas delas, inclusive, situadas fora do Brasil e mais antigas que a de Salvador, a exemplo da de Paris e Frankfurt. Foi nesse périplo noturno, de palco em palco, que a cantora conheceu Valdir Carneiro.Dono de uma companhia de balé que levava seu nome, Carneiro fez um convite para a mulata cheia de curvas e de voz poderosa integrar o elenco de artistas da trupe. "Ele queria muito que eu o acompanhasse numa turnê na África", afirma. Foi-se embora novamente. Viveu dois anos no trânsito entre Angola e Moçambique, se apresentando para a casta portuguesa que ainda não tinha abandonado o osso africano. Elisabete não viu quando os donos do osso resolveram reivindicar a posse dele. "Não estava mais em Angola quando estourou a revolução", salienta.Da África, a cantora percorreu o circuito europeu de cabarés, passando pela Espanha, Grécia e Turquia. Em meados da década de 70, Elisabete já podia ser vista no Oriente Médio: Egito, Arábia Saudita, Líbano e Síria. "Foi na Síria, em 1981, que um empresário francês me viu cantando e fez um convite para algumas apresentações na Suíça. Ele falou: `Querida, tá na hora de ir para a civilização´", brinca. "Eu realmente não estava no lugar certo mesmo", enfatiza. Pôs novamente o pé na estrada, ou melhor nas nuvens. Voou para Genebra e de lá baldeou para uma cidadezinha localizada na borda dos Alpes Suíços, chamada Chaux Fond’s.

***


Caso de amor


Foi a três mil metros de altitude e num frio de rachar o crânio que Elisabeth, no intervalo de uma apresentação no cabaré da cidade conheceu o antiquário Ernest Lehmann, um suíço-alemão de perfil bem ariano. "Ele se apaixonou perdidamente por mim e acabamos nos casando, em 1983", narra. Lehmann morreu em 1990. Deixou uma vida confortável para ela - "Não sou rica e sempre trabalhei muito também", avisa -, mas a herança tinha também frio, solidão e tristeza na Europa. Hoje, ainda se apresentando, mas com menor freqüência, em cabarés requintados da Suíça, com sua pose de diva do jazz e um quê de Billy Holliday com Sarah Vaughan, Elisabeth só pensa em voltar de vez para o Brasil."Por enquanto vou ficar no trânsito entre Salvador e Genebra, por que tenho alguns negócios lá. Mas meu objetivo é voltar para cá e permanecer na minha terra, com esse calor, com pessoas amigas", determina. Que negócios? "Alguns, poucos", esquiva-se. Com o mistério típico dos cancerianos, ela guarda para si muitas coisas. A idade, não diz, e é capaz de sacar as mais sutis artimanhas usadas para se obter a informação. Não declina também o nome de seu grande amor, mas confessa ainda acordar no meio da noite pensando nele e sentindo a mesma coisa de antes. É quando ela tem a companhia daquele que é seu inseparável escudeiro na Europa. Quem sabe, nesses instantes, Elisabeth abrace seu gato Alex e pense como tudo foi bom. FIM

***

Texto de Jairo Costa Júnior

Retirado do Jornal Correio de Bahia

Foto: www.malando.de/geschichte/1950/

Fico devendo uma foto de Elisabeth. Não consegui em minhas pesquisas, mas, prometo, vou revirar o bairro de Itapoã até conseguir encontrar a casa de sua família e voltarei com uma foto dessa encantadora mulher. Emilia Couto

segunda-feira, janeiro 01, 2007

DIVA DA NOITE

O Tabaris apresenta: Elisabeth Al Di Lá

Elisabeth Silva Lehmann não revela a idade, mas torna pública a trajetória da cantora de cabaré
Quando desembarcou em Salvador, em 15 de janeiro deste ano, Elisabeth Silva Lehmann poderia ser facilmente confundida com uma dessas brasileiras que saíram do país para ganhar a vida lá fora. E , depois de consumado o objetivo, resolveu fazer as pazes com a terra natal. Trazia na bagagem da memória as duas décadas em que morou na Suíça e outros tantos anos perambulando nos países da Ásia e Oriente Médio. Mas Elisabeth guardava algo mais em seu baú de recordações. Um tempo no qual ela reinava absoluta no salão do mais famoso cabaré da capital baiana, o Tabaris, que acabou imortalizando seu nome artístico para aqueles que freqüentaram a casa noturna na década de 60. Na lembrança destes, a cantora continua sendo apenas
Elisabeth Al Di Lá, a diva da noite.

A alcunha surgiu de sua interpretação, repetida noite após noite, para a famosa canção tema do filme Candelabro italiano, um último sopro de romantismo melodramático antes que a loucura e a contestação virassem símbolos dos chamados Anos Rebeldes. Mas a trajetória de Elisabeth começa um pouco antes da chegada da era "paz, amor e gás lacrimogêneo". Nascida em Itabuna, no sul da Bahia, a cantora arriscou seus primeiros acordes vocais na Rádio Clube local. "Mesmo com tanto tempo de estrada, ainda fecho os
olhos e vejo aquela cidade, a casa onde morávamos na Rua Rui Barbosa...", lembra, enquanto parece sacolejar as idiossincrasias.Contudo, após as primeiras incursões pelo universo do rádio, a cantora já tinha achado Itabuna pequena demais para seus objetivos e o tamanho de sua ambição. "Eu queria vencer na vida, ganhar dinheiro, me tornar famosa". Nas fímbrias da década de 60, lá estava ela, integrando o cast de cantoras da Rádio Excelsior. Mal sabia Elisabeth que suas andanças pelo Centro Histórico de Salvador transformaria sua vida para sempre. E a mudança correu na tarde de um dia qualquer, a essa altura perdido nas brumas de seu córtex cerebral. "Fui apresentada, por alguém que não me lembro, a um cara chamado Sandoval (Caldas, o último cabaretier autêntico da Bahia), nos arredores da prefeitura. Ele disse que
precisava de uma cantora para a orquestra que estava montando em sua casa noturna", conta.Nesse instante, imersa em suspiros que passeiam pelo rol da casa de sua família, em Itapuã, Elisabeth muda a voz. Parece falar para dentro de si. De repente, como se despertasse de um hipnotismo, ela vai relembrando sua passagem pelo reduto da boêmia soteropolitana: "Aquilo tudo, a orquestra do maestro Oscar, o palco, a casa cheia, as danças no salão, tudo aquilo era diferente, encantador", destaca. Ali, a cantora permaneceu quatro longos anos, numa Salvador que se transformava em reino bacante entre as 22h e as primeiras horas da manhã, espremida na microcélula da gandaia situada em frente à Praça Castro Alves, onde hoje funciona o Teatro Gregório de Mattos.

***
Voz de veludo
Foi no Tabaris que Elisabeth forjou sua voz negra de veludo e a presença de palco de dama da noite. Cantando músicas de Dalva de Oliveira e Ângela Maria, ou estandartes da canção americana ou francesa, ela conheceu a vida da ribalta. Algo que traz no sangue até hoje. Mesmo quando fala de coisas tristes. "Havia muito preconceito com quem tocava no Tabaris, principalmente das pessoas que se diziam `da sociedade´, embora muitas delas sempre dessem uma passadinha por lá, nos bailes de mascarados", recorda. E foi o preconceito que fez com que a cantora abandonasse a casa noturna para buscar o sucesso no Rio de Janeiro. "Sempre dizia que quando eu não entrasse mais no Anjo Azul (outra famosa casa noturna do Centro Histórico), eu iria embora daqui", lembra. Até que aconteceu. Certa vez o dono do Anjo Azul - acho que era Nei o nome dele", arrisca - barrou Elisabeth no lugar. Disse que um cliente sabia que ela era do Tabaris e não queria a sua presença lá. O golpe foi fatal. "Uma semana depois, acho que era 1968, não sei bem, larguei tudo e fui para o Rio de Janeiro". Fazer o quê?

"Cantar, ora essa", arremata.
***
continua ...
Artigo de Jairo Costa Júnior

sexta-feira, dezembro 29, 2006

A Casa dos Notívagos



última parte

O mapa do prazer e da diversão na cidade se mantém inalterado ainda na década de 60, quando o Tabaris entra em sua fase mais decadente. O que não implicou na redução da folia nas dependências do estabelecimento. Pelo contrário. Havia diversão, e muita, no Tabaris dos anos rebeldes. Só que sem a presença dos balés, coristas e espetáculos de revista. Agora era a vez dos grandes dançarinos de salão, dos crooners de baile e das mulheres da vida que faziam ponto no lugar. Foi nesse período que a casa trouxe outro atrativo para seus fregueses: os shows de strip-tease, que se tornaram as performances mais esperadas da noite durante anos.

É nesse instante que a história do Tabaris se confunde com a do lugar que o abrigou. Quando a casa fecha suas portas, é como se o próprio centro de Salvador estivesse dizendo adeus aos tempos gloriosos. Seu declínio é o declínio da Rua Chile, com seus transeuntes elegantes e atmosfera requintada. É o fim de uma era com figurino comprado na Casa Sloper e que se refrescava na sorveteria A Cubana, mas também comia feijão de madrugada pelas calçadas. De preferência, com a cara cheia de birita e uma companhia a tiracolo.
Com o fim do Tabaris, sua trajetória caiu na névoa do esquecimento, para ser resgatada tempos depois pelas mãos de duas figuras responsáveis por levar a mística da casa noturna para os palcos do teatro: Manuel Lopes Pontes e Cida Lobo. Mas é nas narrativas de seus personagens que o Tabaris permanece eternizado. Malandros, putas, beberrões, dançarinos, artistas, a fina flor da sociedade, todos se misturavam num caldo só.

No esteio da história do Tabaris, ressurgem nomes como Príncipe Mário, Bob Laô, Carlan, Sandoval Caldas, Elisabeth Silva, maestro Vivaldo Conceição, Chiquito da Bengala, Diógenes Grumberg, Pedrinho, Vadinho Telecoteco, AE e tantos outros - famosos, folclóricos ou anônimos. Agora, coloque rum e refrigerante de cola num copo longo, encha de gelo, acrescente limão, ponha uma "fossa" de Vicente Celestino ou um bolero do Trio Irakitan na vitrola, e vire a página. A noite vai começar. Fim

Foto de Nuno Pedrosa
Artigo retirado do Jornal Correio da Bahia.
Escrito em 07.11.2004

terça-feira, dezembro 26, 2006

A Casa dos Notívagos



II parte

Nos primeiros anos do Tabaris, os olhos do público não se voltavam somente para as mulheres que circulavam com desenvoltura e elegância pela pista de dança do lugar, em corpos que eram, ao mesmo tempo, motivo de cobiça ou de orgulho. A depender do bolso do observador. Também não eram alvo exclusivo da mira dos freqüentadores os músicos e atrações contratados para encher seus salões. Muitas vezes as atenções se dirigiam ao pano verde. Era sobre ele que as pupilas dos mais abastados se dilatavam, no vaivém das fichas lançadas à sorte em mesas de roleta, pôquer, bacará, dados e black-jack (o popular 21). Até o momento em que os cassinos foram proibidos no Brasil - fato ocorrido durante o governo Dutra, em 1946 -, a jogatina comeu solta por lá.

Quando explodiu a Segunda Grande Guerra (1939-1945), foi no Tabaris que o povo encontrou alento. Ao invés de saber das bombas, melhor ouvir o bumbo de uma orquestra. No lugar das rajadas de metralhadora, o arpejo de um violão. E assim os farristas de Salvador tinham como esquecer que o planeta vivia assombrado. Mas a casa também tinha lá suas batalhas. Principalmente entre os baianos e os militares americanos lotados na base dos EUA no estado. Ninguém engolia muito a arrogância do milicos gringos do Tio Sam e partiam para o pau ao menor sinal de conflito. E se o motivo da contenda era uma das "moças" do lugar, aí a temperatura esquentava e o caldo engrossava de vez.

O charme do Tabaris permaneceu ao longo da década de 50, embora o jogo já não fosse mais permitido. Os atrativos, então, ficavam por conta das companhias de dança - os famosos balés -, com suas belas integrantes, orquestras de músicos de ponta e apresentações do teatro de revista. Por várias vezes, a casa recebeu as estrelas de primeira grandeza da era do rádio. Muitos astros iam só para se divertir, mas com freqüência eram convidados a dar uma canja, e quase nunca recusavam. Nessa época, todo boêmio que se prezasse na cidade tinha a mesma rota noturna: uma prévia no bar da preferência, seguida de uma visita em um dos vários bregas do centro e o encerramento com gala nos salões da casa.
...
continua...
Retirado do Jornal Correio da Bahia.Escrito em 07/11/1004

segunda-feira, dezembro 25, 2006

A CASA DOS NOTÍVAGOS

O Tabaris apresenta: as memórias de seu tempo.

I parte
...
Rua Chile, Centro Histórico de Salvador, 2004.
Os carros se apinham na tentativa de encontrar uma vaga para Estacionar, enquanto as buzinas, acionadas por mãos em frenesi, inundam o espaço com uma sinfonia de ruídos. É a trilha sonora criada para embalar a pressa. Na Praça Castro Alves, o poeta parece, no cadinho da fantasia, sair de sua imortalidade esculpida em bronze e mármore, recolher o braço sempre estendido e fugir correndo daquela loucura urbana sem brilho, métrica, rima. Mas houve um tempo em que ele jamais arredaria o pé dali.
Uma época onde aquele emaranhado de vias e edifícios era regido por música, dança, boemia e sensualidade, e cujo epicentro era anunciado em luz e cor: Tabaris. Durante décadas, o corredor situado entre o Cine Guarani e o Bar Cacique abrigou a vereda que conduzia à mais famosa casa noturna da cidade. Nos 34 anos em que permaneceu em funcionamento, o Tabaris foi o templo dos notívagos de papel passado, a alcova dos amantes da farra, a alma dionisíaca de uma Salvador que pulsava em torno do centro, com os olhos postos na Baía de Todos os Santos. Do passado de frisson, restou muito pouco. O prédio continua lá - agora transformado em Teatro Gregório de Mattos -, mas sua estrutura interna foi modificada em 1986 pela arquiteta italiana Lina Bo Bardi.
Embora a fachada continue quase a mesma, desapareceram as colunas e paredes espelhadas, o palco levemente elevado, a iluminação colorida. Menos da memória daqueles que cruzaram seu salão quadrado entre boleros e rumbas, tangos e foxtrotes, sambas e baladas. É através dos seus antigos freqüentadores que o Tabaris renasce, fazendo emergir do baú de lembranças e idiossincrasias uma história regada a gin-tônica e cuba-libre. História essa que teve suas glórias e fracassos. Dos anos 30 aos 60, a trajetória da casa noturna foi marcada por diversas fases, pontuando uma linha que vai do esplendor do glamour à escuridão da decadência. Entretanto, ainda que experimentasse o declínio, o Tabaris nunca abandonou seu propósito inicial de divertir quem estivesse disposto a cair na gandaia.
...
continua....
Retirado do Jornal Correio da Bahia. Escrito em 07/11/2004

quarta-feira, dezembro 13, 2006

meu pai...Sandoval

foto de nuno andré monteiro

Meu pai, Sandoval.

Em primeiro lugar quero muito agradecer a minha prima Emília essa grande homenagem.

Coisa que muito gostaria de fazer, porém não sou boa de escrever e sim de falar, preferencialmente olhando no olho, frente a frente, nisso eu sou boa, inclusive foi a maior coisa que meu pai me ensinou:


“Quando falar com alguém, fale olhando no olho, pois esses são as janelas da alma e é através deles que você consegue e aprende a viver e sobreviver.”


Falar de meu pai é fácil, porém difícil devido a grande falta que ele me faz.
Com ele aprendi tudo o que sou. Ele não era uma pessoa de grande cultura como se diz “dos livros” mas teve a grande cultura da vida. Ensinou-me a ser autêntica, ser verdadeira, assim como ele o era.
Ele foi uma pessoa incrível , me deu todas as oportunidades que pode. Foi ele quem me ensinou tudo, se hoje sou o que sou... foi devido a ele. Sempre foi uma pessoa de personalidade forte, às vezes entrávamos em choque, mas era divertido. Ensinou-me que precisamos das pessoas, porém temos que saber nos virar sozinhas; ensinou-me a ter responsabilidade por todos os meus atos e atitudes. Era uma pessoa forte, de bem com a vida. Sempre me disse que:
“a vida era uma via de mão dupla... que tudo que fazemos tem volta, e que nunca deveríamos apenas reagir e sim agir e de preferência de cabeça fria”.

Sou sua filha mais velha, e a mim foi passada a responsabilidade de cuidar da minha família, o que faço com grande carinho principalmente pela minha Mãe, que é e sempre foi uma grande mulher, pois conviver com o Sandoval (marido) não deve ter sido fácil, afinal ele não deixava passar batido os “rabos de saia” ,como ele dizia.
Entretanto, nunca, nunca, durante minha vida vi meu pai e minha mãe brigarem, ela era esperta e ele a respeitava mais do que tudo. Ele dizia:


- “Não mexa com minha mulher e minhas filhas que eu faço uma sopa de dentes com caldo de gengiva” (rsrs)


Ele era ótimo, tinha um humor maravilhoso o sorriso então nem se fala, mais quando zangava .... saí de baixo!.


Não freqüentei o Tabaris, pois na época era menina e ele não admitia, pois ali era seu ganha pão e ele não misturava as coisas. Tive um pai maravilhoso que soube viver cada dia de uma vez, vivia o presente. Hoje ele deve estar fazendo a maior festa onde quer que esteja, pena que Deus o levou tão cedo, mas..........ELE sabe o que faz.

Se for dar asas a minha imaginação não vou conseguir parar de escrever e de chorar, pois as lembranças são muitas. O que sei é que o amava muito e que a recíproca foi verdadeira. Até hoje nos encontramos nos sonhos, nunca deixamos de nos falar, até hoje ele me ensina.

Mais uma vez obrigada Miloca por essa alegria!

Rita de Cássia de Almeida Couto Caldas

***********

Após escrever o texto, acima, e enviar-me, Rita e eu tivemos uma conversa no MSN, a conversa se alongou ...porém decidi que um trecho dela deveria ser mostrado aqui..e o faço sem a autorização dela...mas ... acompanhe comigo....eu não poderia me furtar a um momento tão descontraído como esse.
Rita faz um esforço de memória para lembrar de sua ida com Ricardo (Cal , meu irmão) ao Tabaris, num sábado, com apenas 11 anos de idade....me diz ela assim:
- o que lembro é que era de tarde, e o pessoal tava fazendo faxina, Minha Rosa * se lembra dela?, estava lá,
como sempre com seu cigarrinho. Eu achei tudo muito grande, com muitas luzes, tinha aquelas bolas penduradas no teto e elas brilhavam , o lugar estava escuro...o que me lembro bem é que a gente ficou tudo de pescoço duro olhando pra cima. Meu pai chegou lá como sempre brincando e brigando com o pessoal da limpeza. Lembro que ele dizia:

- "Quero tudo isso aqui brilhando, quero ver meu reflexo no chão"!

- a mania nossa de limpeza não vem só de minha mãe não. Ele tb era um saco (rsrs)–

E repetia alto :
- "quero isso aqui cheirando a "pica**"
Mila isso vc não publica!
Era assim que ele falava,lembra? ou que tava cheirando ou fedendo a p...Quando tava "retado"?
"to fedendo a p..."!

- Até hoje eu falo assim. Também uso aquela frase da sopa de dente com caldo de gengiva... eu adoro!

Mas, o que eu quero mesmo é falar do meu pai entendeu? Afinal sou o que sou devido a ele e eu o amava muito ainda hoje sinto sua falta.... você não tem idéia, prima, da falta que ele faz! Se ele tivesse aqui muita coisa não teria acontecido e talvez estivéssemos em outra situação principalmente eu e minha irmãs.

- Você me fez chorar.

- Não fariam com a gente metade do que fizeram. Eu não teria passado por tanta coisa minha mãe não teria sofrido tanto. Afinal você se lembra a barra que ela passou, não é? .................

******


Fim da conversa.



Aqui, amigos e amigas encerro...daí em diante a nossa conversa tornou-se extremamente pessoal...ficamos por aqui... no amor de Rita e nas suas memórias e lembranças por seu pai....

*Minha Rosa, irmã de coração de Sandoval, o acompanhava como uma espécie de secretária.

** A palavra pica, aqui colocada, é uma expressão vulgarmente usada na Bahia. Trata-se da referência ao órgão genital masculino, que aqui é descrita apenas para mostrar a sua forma usual.

Esta postagem rende uma homenagem a minha mãe, Luzia, que hoje completa 81 anos.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Sandoval ...por Ricardo Couto

Bem, diz o ditado que : "santo de casa não faz milagre".
Vou literalmente derrubar essa máxima!
Foi só provocar e....
Meu irmão Ricardo, um geográfo por profissão, amante da História, um ariano ávido pelo conhecimento
um homem obstinado, resolveu abrir seu coração a me falar de suas memórias, aliás falar não, escreve-las.
Por ser meu irmão mais velho, um dos sobrinhos mais adorado por Sandoval, será dele o direito mais que
merecido de ter aqui publicado um texto emocionante.
Ricardo (Cal) apresentará para vocês, de uma maneira muito doce, o nosso amado tio Sandoval.
É para se deliciar...

O SHOW COMEÇA ASSIM!

Saravá! Sandoval


A quanto tempo, inconscientemente, esperava que um dia, algum dia, alguém, em algum lugar, tivesse a feliz e iluminada idéia de reavivar a memória e a história de Sandoval. O velho e saudoso “Sandoca” !

Quanto é fácil e tão difícil falar de Sandoval, lembranças, saudades, histórias, lendas e “causos”, principalmente para quem de perto o conheceu, como no meu caso. Vivi suas alegrias, tristezas, triunfos, derrotas, esporros e gargalhadas...sonoras, estridentes, cheias de vida...

Segundo o grande Jeová de Carvalho, um de seus muitos compadres, “Sandoval conhecia a noite e seus mistérios como as linhas das mãos”.

Ao longo dos anos, ouvi e li sobre as histórias do Tabaris, suas noitadas, famosos, ilustres desconhecidos, prostitutas, doutores, malandros, comerciantes, artistas e principalmente o “maestro” Sandoval.
Quando foi fechado oficialmente em 68, eu tinha apenas onze anos da mais tenra idade, nada sabia da vida, casto, mesmo que quisesse não poderia freqüentá-lo. Entretanto, guardo na lembrança, como se ontem fosse, uma ida ao famoso “Cabaré”.

Pouco antes do seu fechamento, tinha pouco mais de dez anos à época, um dia pela manhã, saímos de sua casa, eu, ele e duas de suas filhas: Rita e Selma. Era um sábado, fomos até lá o acompanhando onde ele ia pegar ou fazer algo. Chegamos à Praça Castro Alves e à beira da calçada estacionou o carro ... entramos...
Lá dentro fique deslumbrado, nunca tinha visto nada igual, um amplo salão, com algumas colunas, um grande palco ao fundo, um bar na extremidade, uma escada lateral, que levava a um pavimento superior,
(hoje me esforço em imaginar o que “rolava” lá por cima, risos), muito papel laminado na decoração, luzes, mesas e cadeiras em madeira e o piso em um tom vermelho, se a memória ao longo destes quarenta anos, não está a me trair.
Ficamos algum tempo, tomamos um refrigerante Fratelli Vita (Guaraná) a e fomos embora a bordo do seu Sinca Tufão azul e branco.

Naquela época não tinha a menor idéia do que acontecia por lá, soube depois que grandes artistas se apresentavam, nomes como Ângela Maria, Miltinho, Nelson Gonçalves, dentre tantos...
...

Tempos depois, com mais idade, fui ao Teatro Castro Alves, onde foi montado um espetáculo, homônimo, que contava a história da trajetória do velho Tabaris e no encerramento, se apresentou seu último e inesquecível dono.
Sandoval vem ao palco: canta tocando marácas e bandolim, acompanhado da sua famosa orquestra "Moonlight Serenade", sob a regência do Maestro Vivaldo Conceição e um grupo de coristas.
Uma noite inesquecível pra mim.
...


A foto de Sandoval, que se junta a esse breve texto de memória, com seu contagiante sorriso e inseparável bandolim, a tenho guardada desde 25 de março de 89, quando foi publicada no Jornal A Tarde, numa singela homenagem, um dia após sua partida.

Guardei-a com carinho numa caixinha, junto a meus pertences mais importantes que trago como recordação de momentos que me marcaram durante a vida. Sabendo, no fundo do coração que um dia, em algum momento, ela ia ser útil. Momento este, onde lágrimas, num misto de alegria e saudades teimam em rolar por minha face.
Use-a minha irmã no nosso Tabaris.

AH! Lembro ainda que, ao abrir e encerrar seus shows, Sandoval gritava “SARAVÁ”, pedindo licença e agradecendo a Deus por mais uma noite e pela oportunidade de estar entre seus amigos.

Tenho a certeza que ele está feliz, lá, na filial divina do velho Tabaris, onde em suas mesas estão a beber, cantar e jogar conversa fora, Vinícius, Jorge, o bem amado, Nelson, o Cavaquinho e o Gonçalves, Noel, Elis, Drummond, Glauber, Cássia, e porque não o Frank, com seus olhos azuis.

Saravá! Sandoval.

Que Deus lhe abençoe por toda a eternidade.


Ricardo Couto (Cal)
Esta postagem de hoje é também um presente a minha adorada tia Soinha, viúva de Sandoval, que hoje completa 77 anos de vida. Parabéns tia.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

O TABARIS

Praça Castro Alves - Salvador - Bahia - Brasil
O Tabaris localizava-se atrás do primeiro prédio, à direita, na foto acima.
O Tabaris Night Club foi fechado oficialmente em 1968, por
Sandoval Leão de Caldas, seu último proprietário. Uma das
maiores Casas de Espetáculos da Bahia, situada em Salvador,
sua capital. O prédio onde funcionou o Tabaris fica na Praça
Castro Alves, sua fachada assiste o mar da Baía de Todos os
Santos. Ainda está lá. Mas o Tabaris vive só na memória dos
que sobreviveram. Seu clima noir...surgiu junto com os anos 50,
os anos dourados. Presto aqui uma homenagem àquela casa
que não conheci, e ao seu último dono que para minha sorte era
o meu tio, a quem aprendi a amar.


Reabro hoje O Tabaris...


para receber velhos e novos amigos,

autores,

homems e mulheres da arte das palavras e das músicas.

Porque O Tabaris foi feito de palavras e músicas.
Uma contagiante música dos anos 50/60.
Uma expressão nostálgica das palavras de um tempo turbulento
e de mudanças profundas.
O mundo mudava e Sandoval, no Tabaris,
o mostrava... o contava...o cantava...
Ele abria a noite de sua casa, juntamente com sua orquestra,
dizendo:
O SHOW COMEÇA ASSIM!

texto 1

Desde criança ouvia a palavra Tabaris, todo o tempo falada por
minha família. Por um tempo não soube o que significava. Mais
tarde quando a idade já me permitiu, entendi que meu tio tivera
uma casa de show chamada Tabaris. O significado dessa
palavra eu não sei qual é. Até procurei exaustivamente, mas não
encontrei. E assim talvez deva ela permanecer: sem explicação,
sem sinônimo que a defina dentro da norma culta. Cada pessoa
que viveu dentro ou fora do Tabaris tem em si o seu significado.
O certo é que sempre achei a palavra bonita, e quando entendi
que se tratava do nome de uma casa de show, passei a
associa-la a alegria, a dança, ao amor, a dor, ao prazer...
Sandoval faz parte de minha família. Chegou até ela porque
apaixonou-se pela irmã de minha mãe, e com ela casou-se e
constituiu uma família. Sua presença , desde que posso lembrar
sem muito esforço, foi marcante pra mim. O sorriso do meu tio
Sandoval era algo muito forte. Com esse sorriso vivi boa parte
de minha vida. Com o passar da vida estreitei com ele laços de
incondicional respeito, admiração e bem querer.
E mais tarde compreendia o esforço daquele homem, de estatura
mediana e sorriso farto, em persistir no projeto de ter um
espaço, vários espaços, onde a música pudesse cumprir seu
papel fundamental: o de embalar dores e amores. Assim o
percebi, assim o guardo nas minhas memórias.
Em nome disso, e desde que ele nos deixou, em 1989, que penso
uma forma de contar sobre ele, e sua época para as pessoas. Os
anos foram passando. Até que essa possibilidade deixou de ser
um desejo apenas e hoje pode se tornar uma realidade. Criar
um espaço e trazer as estórias de um período , tanto por suas
adversidades como igualmente pela riqueza cultural que, numa
releitura, servirá para clarificar nossa memória, fragilizada
memória. Não esqueci todas as representações do meu passado,
e acredito que muitos também não. Então precisamos contá-las.
Esse blog, é hoje o instrumento que me aproprio para trazer e
reconstituir ações, lugares, pensares, de um tempo que é nosso e
devemos, por todas as razões, (re) conhecer . Memória de um
tempo turbulento, poucas vezes registrado materialmente. Mas
que está registrado nas emoções daqueles que o viveram.
Acreditem: não foi fácil. Mas sou teimosa por natureza. E decidi
que faria. Quero o esforço de memória de quantos eu puder
conquistar para deixar registrado, aqui, a importância que foi a
construção do nosso passado rumo a esse futuro diante de nós.
Começar pelo Tabaris torna-se-a uma aprazível viagem. É uma
referência, posto que foi uma referência de infância. Vou
começar por ele. Vou tentar lembrar às pessoas o seu significado
e o que representou e pode representar as nossas manifestações
culturais, apesar das influências externas que sofria. Mas que
aqui, misturavam-se e tornavam-se outra coisa. Esse resultado é
algo que quero descobrir.
Criar esse espaço talvez seja, nesse momento, uma
oportunidade rara de mostrar isso a todos. Com toda certeza e
com muitas mãos possamos trazer de volta, e dar a conhecer à
nossa gente pedaços de seu passado. Passado que nos levará a
uma maior compreenção de nosso presente. Só saberemos mais
tarde, quando mais tarde for o futuro dos que estão crescendo
agora. Talvez esses se dêem conta que toda essa riqueza
cultural que possuímos não é a-toa. Ela foi, arduamente
construída lá atrás, para que hoje possamos, por herança, viver
tão intensamente, tal qual meu povo vive. Só que com uma
diferença, o povo de minha terra dirá: eu sei...está na minha
memória a minha história.

E por que eu sei? Porque cresci no seio de uma família que me
contou suas estórias, que me falou do seu tempo de antes. Foi
assim que aprendi a importância dele.
Ouvi repetidas vezes as memórias.
texto 2

Blog pronto. Restou a grande tarefa: que canção? que canção
caberia aqui? Que canção pudesse, nesse primeiro momento, ser
ouvida pelas pessoas. Depois de ouvir tantas, e tão bonitas,
cheguei a uma que representasse melhor Sandoval. E nenhuma
poderia ser melhor que My Way, cantada por Sinatra.
Um mito da música. Um mito para Sandoval. Um mito de musica.

Há muitos anos atrás visitei meu tio, na sua última casa de
show. Numa noite, inesperada fiz-lhe uma surpresa. No meio da
madrugada o chamei e lhe pedi: - tio: pede pra orquestra tocar
My Way pra mim. pedido prontamente acatado, dancei no
salão, ao som de My Way, com meu tio. Não sei dançar, nunca
soube, mas naquela noite dançamos.

Sandoval foi um homem de grandes virtudes e grandes defeitos.
Um ser humano ímpar. Era um homem que amava, ao seu jeito,
a sua maneira, poucas vezes compreendida, mas ele amava.
Deixo-a aqui. Para aqueles que a conhecem relembrar, para
aqueles que não... agora conhecer
My Way
Frank Sinatra
Composição: Paul Anka & Jacques Revaux
And now the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I'll say it clear
I'll state my case of which I'm certain
I've lived a life that's full
I traveled each and every highway
And more, much more than this
I did it my way
Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption
I've planned each charted course
Each careful step along the byway
And more, much more than this
I did it my way
Yes there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it my way
I've loved, I've laughed and cried
I've had my fill, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say, not in a shy way
Oh no, oh no, not me
I did it my way
For what is a man, what has he got?
If not himself, than he has naugth
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way.


texto 3

A data escolhida não é mero acaso. Se ainda estivesse entre nós, Sandoval no dia 04 de dezembro completaria 79 anos.

Esse blog é o meu presente, pelas lembranças vivamente alegre que quardo do meu tio, dentro de minha mente e dentro do meu coração. Um agradecimento pelo enorme carinho que sempre me dispensou.
A ele a minha gratidão por ter sido, por várias vezes, em circunstâncias adversas a minha vida, extremamente compreensivo e generoso.

*

Agradecimentos:


A minha amiga Madalena Pestana, senhora das palavras, que
vive em Lisboa, separada por um imenso e bonito oceano,
por ter dedicado parte do seu tempo em tornar o designer desse
blog algo bonito de se olhar. A ela meu carinho por
compreender a importância desse projeto e por sua
extraordinária ajuda...

A minha família, por ter me contado tantas (his) estórias...e por
estar reunida.

A meu querido e estimado tio Sandoval pelo amor que me
dedicou; por sua presença constante nos meus sonhos; Uma
promessa: vou fazer disso aqui uma festa memorável!
Emília Couto
(miloca)